Loriga
– porventura a terra mais panorâmica do Concelho de Seia – está
situada
em plena Serra.
A
guisa de moldura imponente abraçam-na e cingem-na altos montes com
as suas penhas e peducais, tendo nas suas faldas o tapete verde e
manso dos pinheiros.
É
bela, surpreendentemente majestosa e típica esta terra. Vista de
longe, da Penha d’Águia por exemplo, arrebata, domina e extasia
ao mesmo tempo.
Terra
de alturas e abismos, de ribeiras pressurosas com água pura a
cantar e dançar à volta de penedia calva e branca, de milheirais
verdes cobrindo courelas encavalitadas em anfiteatro que desce pelos
pendores do outeiro onde se situa. Na sua rudeza, na alegria pura
das suas gentes, nos remansos e passeios silenciosos, no rumor das
suas fábricas e oficinas, nas suas casas brancas e na grandeza e
imponência da sua serra, é uma terra turística e privilegiada,
terra sonho, de paisagens que não esquecem, de ares que tonificam
de fontes que refrescam e dessedentam…
Há
em Loriga uma devoção bem vincada à Virgem com o título de Nossa
Senhora da Guia. A noroeste da povoação, num morro que emerge da
ribeira de S. Bento, branca e airosa, levanta-se uma ermida em Honra
de Nossa Senhora da Guia. A sua devoção está bem viva e firme na
alma do povo Loriguense.
É
deveras curiosa a história da capela e do culto de Nossa Senhora da
Guia.
Nos
meados do século passado existiam em Loriga os “Cartagenos” ou
sejam negociantes que por esse Portugal fora vendiam peças de lã
inteiramente feitas à mão.
Foram
eles, com certeza, os imediatos antecessores dos industriais de
Lanifícios. Loriga, era aliás, terra ideal para essa indústria,
pois a água que corre nas ribeiras era força motriz para mover as
suas máquinas. Esses “Cartagenos” nas suas andanças comerciais
viram em Vila do Conde, junto à foz do Rio Ave, uma ermida em Honra
de Nossa Senhora da Guia, padroeira dos pescadores. Quando em Loriga
se pensou em levantar uma capela em louvor da Virgem o título
escolhido foi de Nossa Senhora da Guia.
Mesmo
não poderia ser outro. É que muitos Loriguenses, à procura de
melhor sorte, já nessa altura trabalhavam no Brasil, mormente na
região do Amazonas, nas cidades do Pará e Manaus. Nossa Senhora da
Guia tornou-se por isso padroeira dos emigrantes.
O
local escolhido para a construção da respectiva capela foi o morro
atrás citado então denominado “Gemuro”. Alias este local já
então era visitado, pois servia de miradouro a para os Loriguenses
olharem o monte do Colcorinho sobretudo no domingo do E. Santo, a
quando da celebração da festa de Nossa Senhora das Preces em Vale
de Maceira. E o povo era tanto, já nessa altura, que um homem de
Valezim fazia comercio vendendo refrescos e rebuçados.
A capela primitiva foi concluída
em 1884 e a primeira festa foi realizada em Novembro desse ano. Esta
capela durou cerca de 40 anos e tinha a porta principal voltada para
Loriga, razão porque o povo cantava:
Nossa
Senhora da Guia
Combatida
pelo vento
Tem
as suas portas viradas
Pr’o
St. Sacramento
A
imagem da Virgem tão bela e expressiva foi feita possivelmente em
Braga e data da data da Construção da primitiva capela. Chegou até
bastante antes da capela estar concluída.
Existe
outra imagem – a Senhora da Guia pequenina – que devia vir para
Loriga aó por volta de 1901-
1902. A
razão desta segunda imagem é a seguinte: No dia da Festa que
exceptuando o primeiro ano (1884) sempre se realizou no primeiro
Domingo de Agosto, de manhã muito cedo, a imagem vinha em procissão
da Capela para a Igreja, regressando para a sua Capela cerca do
meio-dia. Acontecia que muitos romeiros, alguns de longes terras,
vinham até à capela cumprir as suas promessas e dar as suas
ofertas e não encontravam a Imagem da Virgem o que bastante os
desconsolava. Foi por isso que se mandou fazer outra imagem que
substituísse, na ausência a primitiva imagem, de Nossa Senhora da
Guia.
Como a primitiva capela, feita
de pedras de xisto, batidas por enxurradas de água não oferecesse
segurança foi resolvido edificar outra. Para o efeito constitui-se
uma Comissão aí por 1921, sendo demolida a antiga capela e
edificada a actual. O sacerdote que estava frente da Paróquia no
ano de Construção da primitiva capela era o Senhor Padre Matias e
o que paroquiava Loriga quando da construção da segunda capela era
o Monsenhor António Gouveia Cabral.
Nossa Senhora da Guia tem sido
de facto padroeira dos emigrantes. Estes têm-lhe sido deveras
agradecidos. O 1.º Domingo de Agosto é sempre lembrado. Em Manaus
e no Pará os Loriguenses reúnem-se esse dia, por vezes com festa e
procissão em honra de Nossa Senhora da Guia a que já se tem
dignado assistir o Senhor Bispo.
Foram os brasileiros – assim
chamados os Loriguenses que vivem no Brasil – que em 1905 mandaram
edificar o coreto ou pavilhão para a Filarmónica tocar em dia de
festa.
Nossa
Senhora da Guia
Rosa
Branca em botão
Dai
saúde aos brasileiros
Que
deram o pavilhão.
Foram
os brasileiros – os do Pará – que há poucos anos mandaram
edificar o belo altar e retábulo de mármore com motivos alegóricos
à Ladainha da Virgem.
Foram
os brasileiros de Manaus que ofereceram a valiosa e pesada e artística
cruz de prata benzida em 1906 oito dias antes da Festa de Nossa
Senhora da Guia.
Nossa
Senhora da Guia
A
vossa ladeira mata
Dai
saúde aos brasileiros
Que
deram a Cruz de Prata.
Foi também no dia de Nossa Senhora da Guia – reunidos em
festa nesse dia – que os brasileiros de Manaus se lembraram e
cotizaram para em 1905 levantarem os elegantes fontanários de
Loriga.
Apenas para completar esta
breve resenha histórica quero afirmar que existem dois guiões de
Nossa Senhora da Guia: Um vermelho oferecido em, 1888 e que por ser
muito alto e pau foi cortado quando da inauguração da
electricidade em Loriga e outro azul bastante mais largo que a
rodeia.
Infelizmente a devoção, o
culto a Nossa Senhora da Guia está um tanto esmorecido. È necessário
despertá-lo, torná-lo mais vivo, prático e operante.
Que Nossa Senhora da Guia seja
o elo que ligue e polarize todos os corações dos Loriguenses
espalhados pelo mundo, que lhes lembre sempre a sua e nossa querida
terra, as suas famílias, nos recorde os nossos deveres Cristãos,
nos ensine a imitá-la e um dia nos reúna a todos no céu.
A.M.C
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Evolução
do Santuário de Nossa Senhora da Guia